3 de julho de 2022 - 18:10

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Etiópia está em guerra há mais de um ano, com dezenas de crianças sofrendo, e pouco se fala disso

Enquanto as atenções do mundo estão voltadas para a guerra na Ucrânia, outro conflito provoca cenas horríveis de civis, muitas vezes crianças, feridos. A guerra na Etiópia, na África, se arrasta por quase um ano e meio.

As forças pró-governo e os rebeldes da região de Tigré se enfrentam no norte da Etiópia desde novembro de 2020, quando o primeiro-ministro Abiy Ahmed enviou o exército federal para expulsar as autoridades da região, governada então pela TPFL (Frente de Libertação do Povo Tigré), movimento que contestava há vários meses sua autoridade.

As tropas rebeldes da TPLF foram rapidamente derrotadas. Mas, em 2021, os insurgentes tomaram o controle da região e, desde então, avançaram para as regiões vizinhas de Amhara e Afar.

No final de março, a Etiópia anunciou um cessar-fogo unilateral, o segundo anunciado em um conflito que já dura 17 meses e que deslocou milhões de pessoas e colocou centenas de milhares em condições de fome.

Uma nova frente na guerra na Etiópia, na região de Afar, porém, está colocando em risco os esforços para fazer com que os inimigos participem das negociações de paz, disseram três autoridades regionais e três diplomatas, e o cessar-fogo declarado pode ter sido rompido em alguns lugares.

A explosão da violência em Afar, neste ano, ocorreu após os combates nas regiões vizinhas de Tigré e Amhara chegarem a um impasse enquanto ganhavam força os esforços para fazer com que o governo em Adis Abeba e os rebeldes em Tigré concordassem em participar das negociações de paz.

“Não pode haver paz na Etiópia enquanto houver combates em Afar”, disse Mussa Ibrahim, um líder de clã em Erepti, um dos seis distritos em Afar atualmente ocupados pelas forças de Tigré.

Apesar do cessar-fogo, o comissário de polícia de Afar, Ahmed Harif, disse à agência de notícias Reuters que os combates prosseguem em dois dos seis distritos ocupados pelos combatentes de Tigré, além de estar ocorrendo um aumento “significativo” de forças de Tigré ao longo da fronteira.

Dois trabalhadores de ajuda humanitária confirmaram os combates.

Getachew Reda, um porta-voz da FLPT, que está enfrentando o governo, negou a ocorrência de combates naquelas áreas. Ele não comentou sobre as acusações de aumento de tropas.

A FLPT disse anteriormente que observaria um cessar-fogo caso ajuda fosse prontamente entregue.

A última vez em que o governo declarou um cessar-fogo unilateral em julho, após meses de combates que forçaram os militares a deixarem Tigré, a FLPT o considerou uma “piada” e continuou lutando, dizendo que as condições necessárias para a paz não foram atendidas.

As forças da FLPT e de Afar contestam quem iniciou a série mais recente de combates na região nordeste, que tiveram início em meados de janeiro. O governo regional estima que 300 mil pessoas tiveram que abandonar seus lares.

A FLPT diz estar respondendo aos ataques feitos pelas forças de Afar e aliadas em Tigré, enquanto as autoridades de Afar dizem que as forças de Tigré foram as agressoras.

Entre os que fugiram da violência estava Ayisha Ali, cuja cidade natal de Berhale foi atacada no início de fevereiro.

Falando em um depósito que serve como um acampamento rudimentar para os deslocados em Afdera, a cerca de 130 km a sudeste do lar dela, ela disse não saber o que aconteceu a seus sete filhos, após sua família ter sido separada em meio ao caos.

Doze outros parentes foram mortos quando suas cabanas foram atingidas por explosões, ela disse. Entre eles estava sua irmã, os cinco filhos de sua irmã e uma prima grávida. Ayisha culpou as forças de Tigré.

“Não pudemos nem mesmo enterrá-los. Os corpos estavam em pedaços”, ela disse à Reuters. “As armas pesadas estavam disparando conta nós e nós fugimos.”

Dois vizinhos, falando no campo, também descreveram combates pesados e a morte de civis. A Reuters não pôde verificar de forma independente os relatos de Ayisha ou de seus vizinhos.

Getachew, o porta-voz da FLPT, não respondeu as perguntas sobre a morte de civis em Berhale e em outros locais em Afar. O grupo negou anteriormente ter atacado civis.

Culpando uns aos outros

As forças de Tigré entraram em Afar e na região adjacente de Amhara em julho.

Na época, a FLPT disse que estava tentando derrubar o reduto, impedindo os comboios de ajuda humanitária de entrarem na região e forçando os aliados do primeiro-ministro Abiy Ahmed a se retirarem de uma área contestada no oeste de Tigré.

Uma ofensiva do governo em dezembro forçou as forças de Tigré a recuarem da região.

Desta vez, as partes em conflito disputam quem iniciou a violência e os motivos para ela são menos claros.

Ayisha descreveu as forças de Tigré que chegaram em Berhale, em 7 de fevereiro, provocando ferozes tiroteios com milicianos locais usando armamento pesado.

Um boletim interno de segurança das Nações Unidas, visto pela Reuters, disse que os combates prosseguiam na cidade e arredores nos dias 11 e 12 de março.

A FLPT acusa as forças de Afar de atacarem a região de Tigré juntamente com os combatentes da Eritreia, a vizinha da Etiópia ao norte, que também é aliada do governo de Abiy.

O ministro da Informação da Eritreia, Yemane Gebremeskel, não respondeu aos pedidos de comentário sobre as acusações da FLPT. Nos primeiros meses da guerra, o país negou que suas forças estivessem participando dos combates em Tigré.

Autoridades regionais, forças de segurança e milicianos aliados em Afar apontam o dedo para a FLPT pela abertura de uma nova frente no conflito.

“Não sei por que estão nos invadindo, por que estão matando nossas mulheres e crianças”, disse Mohammed Idris, chefe da zona administrativa do norte de Afar. “Nós continuamos nos defendendo, já que esta é nossa terra.”

O porta-voz do governo etíope, Legesse Tulu, e o porta-voz das forças armadas, o coronel Getnet Adane, não responderam aos pedidos de comentários sobre os combates.

Mohammed Hussein, chefe do escritório de ajuda humanitária do governo em Afar, disse que os combatentes de Tigré retornaram a Afar em meados de janeiro e agora ocupam seis dos 32 condados da região.

Getachew não respondeu as perguntas sobre a incursão das forças de Tigré.

A FLPT acusa Adis Abeba de incitar o conflito em Afar para justificar o bloqueio da ajuda humanitária destinada a Tigré, onde mais de 90% da população necessita de ajuda alimentar.

O governo da Etiópia nega o bloqueio da ajuda humanitária e culpa os combates em Afar pelo bloqueio da única rota para os comboios de ajuda humanitária chegarem a Tigré.

As disputas ressaltam quão complicado será colocar um fim a uma guerra que ameaça a unidade do segundo país mais populoso da África.

A FLPT, que dominou o governo da Etiópia por quase três décadas antes de Abiy chegar ao poder em 2018, o acusa de tentar centralizar o poder em detrimento das regiões étnicas do país. O governo de Abiy diz que a FLPT está tentando retomar o controle do país.

Civis mortos

Após Ayisha ter sido separada de seus filhos, com idades entre 5 e 18 anos, ela fugiu.

Ela disse que ela e meia dúzia de outros aldeões caminharam por oito dias pelo deserto, implorando por comida e água aos pastores que passavam. Duas mulheres grávidas que partiram com o grupo ficaram fracas demais para poderem continuar. Ela não sabe o que aconteceu com elas.

O vizinho de Ayisha, Mohammed Mohamouda, disse que pessoas gravemente feridas foram deixadas para trás em Berhale.

“Eram muitos os mortos. Havia sangue e pedaços de corpos”, ele disse em uma entrevista no campo em Afdera, onde famílias faziam fila à espera de água.

Pelo menos 749 civis morreram nos combates em Afar e Amhara desde julho do ano passado, incluindo execuções extrajudiciais por todas as partes envolvidas no conflito, disse em 11 de março a Comissão de Direitos Humanos etíope nomeada pelo governo.

Em uma viagem a Afar no final de fevereiro, a Reuter” visitou dois campos de refugiados lotados de famílias desesperadas.

A desnutrição também está aumentando na região, disse o Programa Alimentar Mundial da ONU, e os campos em Afdera carecem de água, abrigo e alimentos. Mas as pessoas continuam chegando em grande número.

Mohammed Hussein, do escritório regional de ajuda humanitária em Afar, disse que a região está sendo ignorada pelos grupos internacionais de ajuda.

“Precisamos de alimentos, abrigos de emergência, água”, ele disse. “A comunidade internacional de ajuda humanitária (…) está pouco ciente ou não entende a situação em Afar.”

O Enucah (Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários) disse que a ajuda humanitária não consegue chegar a algumas áreas da região devido aos combates, e que todo o esforço é atrapalhado pela falta de fundos, suprimentos e parceiros.

Um quinto das instalações de saúde por toda Afar não está funcionando, disse o Enucah em um relatório de 24 de fevereiro, por estarem inacessíveis ou por terem sido saqueadas ou destruídas.

Os médicos do Hospital de Referência de Dubti, o maior da região e localizado a cerca de 150 km ao sul de Afdera, disseram à “Reuters” que estão ficando sem medicamentos e sem espaço, à medida que chegam pacientes feridos e desnutridos.

O diretor-executivo do hospital, Mohammed Yusuf, disse que cerca de 300 pessoas feridas na violência, incluindo mulheres e crianças, chegaram desde janeiro.

Os casos de crianças feridas por munição não detonada ou minas terrestres saltaram de nenhum para cerca de 25 casos por semana nos últimos dois meses, segundo Tamer Ibrahim, enfermeiro chefe da unidade cirúrgica. A “Reuters” viu os prontuários de 22 desses casos.

 

Diário do Ribeira / Gazeta SP

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