20 de outubro de 2021 - 23:36

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Ciclista de Cananéia conta história de superação e comemora oficialização do PCD LOKO’S

Andar de bicicleta em uma cidade de poucos habitantes como Cananéia é considerado algo habitual, seja para dar um passeio, ir ao mercado e até mesmo para trabalhar. Porém, a atividade tem ultrapassado essa linha de chegada do cotidiano, com algumas pessoas se aventurando um pouco mais. Podemos dizer que alguns muitos quilômetros mais.

Há cerca de 3 meses a equipe PCD LOKO’S deu início a uma rota focada no esporte, reunindo adeptos do ciclismo, sem qualquer distinção de sexo, idade, lenço ou documento, com o objetivo de promover saúde e incentivar as pessoas mexerem o corpinho, uma vez que a máquina humana foi feita para se movimentar.

Afinal, praticar atividades físicas, além de fazer bem à saúde, ainda estimula os hormônios de bem-estar, nos deixando mais felizes.

Uma pesquisa australiana, cujo projeto intitulado Australian Facility for Taphonomic Experimental Research (AFTER) – Estação Australiana de Pesquisa Experimental Tafonômica, sugere que o corpo humano ainda se movimenta por 1 ano após a morte.

Mas como a morte não é o assunto chave aqui, muito ao contrário aliás, retomemos. E nada melhor do que citar o exemplo de uma pessoa que ama a vida e encontra no ciclismo uma alternativa que definitivamente ultrapassa aquele lugarzinho tão familiar chamado ‘zona de conforto’.

Aliás, Norberto Duarte Vieira Godoy, de 36 anos, ultrapassou todos os limites com sua ousadia e força vital. Ele é exemplo, é morador de Cananéia, deficiente físico e primeiro integrante do PCD (Pessoas Com Deficiência) LOKO’S. Não podia dar o spoiler lá na introdução, desculpem.

 

Norberto e sua companheira de aventuras

 

Norberto sofreu paralisia cerebral durante o parto, fato que afetou sua coordenação muscular e, claro, os movimentos de seu corpo, mais precisamente o lado direito.

Em um bate papo com a nossa Reportagem, ele disse que nunca se limitou por conta de sua deficiência física e conta que com 15 anos aprendeu a nadar. Seu lema sempre foi “Se não consigo agora, um dia eu vou conseguir”.

Ainda relembrando sua trajetória, ele conta sobre uma ocasião marcante, na qual estava sentado sobre uma bicicleta e comentou com um amigo que só pedalava com uma perna. Foi então que esse amigo o desafiou a pedalar com a perna deficiente e Norberto respondeu que não conseguiria. “Ele me levou para a rua e eu achei que estava me segurando, mas me enganei. E lá estava eu: pedalando com ambas as pernas”, declarou entusiasmado.

E a partir daí a palavra ‘limite’ foi fazendo cada vez menos parte de sua vida. Ele seguiu para tratamento médico a fim de melhorar sua mobilidade. E não dependeu da família. No ano de 2007, ele colocou a mochila nas costas e foi sozinho para a cirurgia que aconteceu em São Paulo”. Ele lembra que foram 6 cirurgias em um período de 2 anos e que tal feito melhorou 90% na mobilidade do dia a dia e 100% na prática do ciclismo. “Mesmo com gesso no pé estava pedalando. Se Deus nos deu a liberdade e nos inseriu em um planeta tão grande, não faz sentido ficarmos presos”, comentou.

Norberto sempre andou de bicicleta, trabalha de bicicleta e continua com a bicicleta no centro de sua vida. Ele conta que emprestava a bicicleta de um amigo até que ganhou a sua possante de 2 rodas, uma bicicleta com aro 29, por meio de uma rifa realizada entre alguns amigos.

O ciclista desbravador e exemplo de superação de limites teve como seu primeiro companheiro de pedal o médico Pablo Ribeiro dos Santos, que atua na Estratégia de Saúde da Família (ESF) em Cananéia. Aos poucos, o grupo foi se formando e atualmente conta com 7 integrantes.

E assim nasceu a equipe PCD LOKO’S, unindo pessoas por meio de um esporte que tem quebrado barreiras, o ciclismo e com uma inspiração que atende pelo nome de Norberto.

 

Primeiro pedal da equipe PCD LOKO’S

 

O grupo foi batizado e oficializado e agora busca parcerias e patrocínios, e claro, difundir o esporte e acolher novos adeptos.

Os pedais acontecem, em média, 4 vezes na semana e aos fins de semana o grupo costuma visitar as cidades vizinhas (Pariquera-Açu, Jacupiranga, Eldorado e Cajati).

O PCD LOKO’S ainda participa de eventos mais estruturados no Vale do Ribeira, como o já conhecido e divulgado Circuito Ubuntu. Além de estarem viabilizando parceria com oficinas especializadas de bike, como Via Bike/ Jacupiranga e Ciclo Ribeira/Registro, há pretensão futura de viajarem para outras cidades mais distantes, em parceria com outros grupos de ciclismo.

 

Parte da equipe no Circuito Ubuntu

 

“Há muitos lugares bonitos para se conhecer, mesmo aqui por perto, e as pessoas simplesmente não conhecem. Eu publico as fotos do meu pedal para incentivá-las. E não estou usando o fato de ser um deficiente que pedala pra me promover. Não! Há muitas pessoas que estão em cima de uma cama hoje com uma boa condição física, com seus braços e pernas saudáveis e que estão alimentando um fracasso, sem qualquer expectativa de vida”, ‘leciona’ Norberto. (Sim, porque foi uma lição).

 

“O maior espetáculo do dia infelizmente perdemos dormindo, pois a cada amanhecer que Deus nos proporciona Ele nos mostra a grandeza do amor dEle por nós” (Norberto Duarte Vieira Godoy)

 

E prossegue contagiando com sua disposição: “Quero mostrar que o grande adversário somos nós mesmos e que através de um esporte, ou seja lá o que te faz bem, acredito que é possível mudar a realidade à medida em que nos propomos um auto desafio. É preciso se submeter ao novo!”

O recorde do grupo equivale a um percurso de 186 km. Sim! Norberto seguiu de Cananéia até Eldorado e pedalou por 186 km.

 

 

Norberto finaliza comentando sobre como se sente a respeito do grupo. “Eu mudei. Me sinto mais disposto e forte fisicamente, e fazer parte do PCD LOKO’S só me estimula a seguir no ciclismo. Queremos levar o nome de Cananéia e das empresas parceiras por onde formos com muita alegria e disposição, nossa marca registrada.”

E nos reverencia com outra dose de ânimo e incentivo. “Saiam da zona de conforto. Esse lugar é gostoso, mas aos poucos vai prejudicando a saúde. E se você sai para pedalar, você automaticamente conhece pessoas, conhece lugares. E não há limites. Não existe lugar longe. Comece com pequenos trechos, mas comece.”

 

Por Érica Xavier/ Diário do Ribeira

 

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