5 de dezembro de 2021 - 04:22

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A fome é grande

Pessoas aos montes perambulam sem rumo com suas trouxas de roupa, bolsinhas ou sacolas à mão. Sem abrigo, emprego ou dinheiro, à noite vão para as barracas de camping, único luxo que garante uma noite menos fria na maior capital do País. São jovens, idosos, mulheres, homens, pessoas com deficiência, mulheres grávidas ou famílias inteiras. A cena, antes restrita somente ao centro de São Paulo, agora se espalha nos bairros, nos metrôs, em viadutos e região metropolitana.

Está escancarado, até para quem não quer ver, que o Brasil atravessa uma conjuntura sem precedentes. A tríplice das crises sanitária, econômica e política está devastando famílias brasileiras, que sem renda perderam a moradia e a dignidade.

Nesta semana, a Prefeitura de São Paulo anunciou que vai antecipar o censo para contabilizar as pessoas em situação de rua. O último levantamento, de 2019, mostrava que eram 24,3 mil pessoas vivendo nessa situação. Reportagem da Gazeta de julho de 2021 mostrou que o número pode ter aumentado cerca de 50%, segundo a percepção de ONGs que trabalham nas ruas.

A pandemia foi implacável para as famílias em vulnerabilidade social. Precarização do trabalho, informalidade, desvalorização do dinheiro, inflação dos alimentos, aumento do preço de itens básicos como energia, gás e combustível formaram a receita infalível para retroceder 20 anos e o Brasil voltar a ser o país da fome.

São 19 milhões de brasileiros passando fome, segundo dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, desenvolvido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN).

Em meados de 2013, a ONU retirou o Brasil da lista dos países da fome ao ficarmos abaixo da marca de 5% de famílias com algum nível de insegurança alimentar. Oito anos depois, essa porcentagem já está em 9%.

A pandemia sozinha não é a grande vilã, mas a inoperância dos governos e as medidas afobadas, desvirtuadas e descontinuadas como o Auxílio Emergencial culminaram na tragédia atual. É preciso garantir uma renda mínima para essas famílias sobreviverem até que a economia se recupere e seja oferecida a elas uma oportunidade de emprego. O argumento de teto de gastos do governo é inconsistente diante de tamanho esbanjamento de dinheiro público com privilégios e benefícios a políticos, servidores públicos e cargos comissionados.

A crise se agrava à medida que há um desmonte dos programas de sociais. A concentração de renda nas mãos de uma pequena parcela da população demonstra que estamos longe de uma sociedade mais justa e um país melhor. Distribuir marmita é ajuda urgente e essencial, porém a fome é muito maior.

 

Diário do Ribeira/Gazeta SP

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