18 de junho de 2021 - 05:42

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Transferências de escolas particulares para públicas crescem 45% em SP

Em maio de 2020, a jornalista Juliana Magalhães Macedo, de 39 anos, moradora da Vila Regente Feijó, na zona Leste da Capital, decidiu transferir a pequena Valentina, de 5 anos, da escola particular para a pública. No fim do ano, foi a vez do filho mais velho, Miguel, de 8 anos, mudar de escola.

“Ambos estudavam em escolas particulares desde um ano e meio de idade, em um colégio no meu bairro, distante um quarteirão de casa. Entre mensalidade integral e almoço, eu pagava por volta de R$ 4 mil para os dois. Porém, em 2020, meu marido, que tinha um restaurante, acabou perdendo o comércio por conta da pandemia e tivemos que ajustar as contas de casa para o meu salário. A solução foi transferi-los para a rede pública, pois não poderia arcar com o particular”, conta.

 

Macaque in the trees
Questões financeira fizeram com que Juliana transferisse os filhos da rede privada para a rede pública

 

Assim como Juliana, outras famílias tiveram que tirar os filhos da escola particular em 2020, por conta da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. Somente na rede estadual paulista, entre março e dezembro do ano passado, chegaram 15.615 novos alunos, um aumento de 44,4% sobre o ano anterior. Na rede municipal da Capital, o crescimento foi de 35%, passando de 6.597 novas matrículas em 2019, para 8.949, em 2020.

Ambas as redes alegam terem plenas condições de atenderem a nova demanda. O subsecretário de articulação regional do Estado, Patrick Tranjan, inclusive, reforça que as escolas estaduais foram reformadas para atender às novas necessidades sanitárias.

“As famílias devem ir conhecer as escolas, pois elas estão muito diferentes do que quando foram fechadas em março de 2020. Além disso, apesar do aumento de 44%, em números absolutos não é um ingresso muito grande para a rede e, mesmo que o estudante tenha uma preferência por determinada escola, quando ela atinge o número limite de alunos, a gente passa esse estudante para outra unidade e as escolas que, por ventura, não possuírem condições de retornar, não irão retornar”, diz Tranjan.

 

Muitas diferenças
Ainda que as redes estadual e municipal afirmem ter condições de receber os novos alunos, especialistas acreditam que esse acolhimento não ocorrerá como deveria.

“Hoje, infelizmente, a rede pública não tem estrutura física, nem profissionais adequados para atender as crianças com as necessidades que o mundo atual exige. Além disso, o background, por vezes, é diferente, o que exigiria até um suporte psicológico”, avalia a educadora e pedagoga Andrea Deis.

O especialista em educação Ismael Rocha, diretor acadêmico do Iteduc (Institute of Technology and Education) também não tem perspectivas otimistas. “Não acredito que a rede pública tenha condições de atender a demanda da maneira como as crianças e os adolescentes necessitam (…).Há muitos problemas de infraestrutura, desmotivação dos professores, entre outros. Além disso, a educação pública não tem sido prioridade nos últimos governos.”

 

Prejuízos para uma geração
Tanto Deis, como Rocha, acreditam que a pandemia vai impactar de forma definitiva uma geração inteira. Professora da rede pública, desde 1988, a pedagoga Ângela Antunes tem a mesma percepção.
“A pandemia vai trazer prejuízos para uma geração inteira, mas certamente os grupos menos privilegiados vão sofrer mais, pois eles têm menos acesso e muitas vezes os pais possuem menos instrução do que a criança que precisa de ajuda”, analisa a pedagoga, que tem visto de perto o aumento no número de alunos tanto na escola estadual, como na municipal.

Rocha concorda e completa: “Temos hoje no Brasil mais de 40 milhões de crianças, adolescentes e jovens que não possuem acesso a uma internet de qualidade ou a um equipamento que permita acessar a internet. Ou seja, temos uma geração que teve um ano completamente perdido (e já estamos entrando no segundo ano) que vai se distanciar da indústria 5.0, o que pode tornar ainda maior a distância entre as classes sociais no Brasil.”

 

Ensino infantil
Além da expressiva transferência entre alunos da rede privada para a pública, a pandemia também tem feito muitos pais desistirem do ensino infantil. Este foi o caso da designer Amanda Fillipi, 33 anos, mãe de Noah, 1 ano.

“Engravidei em 2019 e já estava tudo certo para manda-lo para escola, quando retornasse ao trabalho. Mas, fiquei morrendo de medo de deixar na escola e acabei desistindo. Hoje, ele fica com a minha mãe.”

 

Macaque in the trees
Amanda desistiu de matricular o filho no ensino infantil por medo da pandemia

 

Atitudes como a de Amanda já se refletem nas matrículas nas escolas particulares de educação infantil, que preveem um cenário conturbado também para os próximos anos. “Houve uma diminuição no número de matrículas, principalmente na Educação Infantil, e é um processo que deverá acontecer também nos próximos anos , visto que em 2.020 houve diminuição em 50% nos números de nascimentos, em relação a 2.019”, analisa Benjamim Ribeiro da Silva, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (SIEESP), que informa que 30% das escolas particulares de ensino infantil sucumbiram durante a pandemia.

 Entrevista com o especialista em educação, Ismael Rocha, diretor acadêmico do Iteduc.

 

 

Diário do Ribeira / Gazeta SP

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